Um parasita versátil
Além do fígado, protozoário causador da malária também se desenvolve na pele antes de invadir células sangüíneas
Ricardo Zorzetto, de Paris e São Paulo
Edição Impressa 153 - Novembro 2008
Pesquisa FAPESP - Na manhã de 2 de abril de 2008 o biomédico brasileiro Rogerio Amino atravessou a rua Dr. Roux e caminhou apressado rumo a um prédio de fachada moderna do 15º arrondissement, um bairro de classe média de Paris. Passou por uma porta de segurança e seguiu por um labirinto de corredores antes de entrar na sala escura onde duas pesquisadoras operavam um microscópio confocal a laser, que permite observar e reconstruir imagens em três dimensões de tecidos vivos. Numa tela semelhante à de um computador, elas acompanhavam o movimento de pequenas bolas verdes fluorescentes. Eram exemplares do parasita causador da malária que se desenvolviam no interior de células da pele. Numa rápida conversa Amino constatou que o experimento seguia como planejado e voltou para seu laboratório, do outro lado da rua, a menos de 300 metros dali. Chefiado pelo médico francês Robert Ménard, o grupo que o biomédico brasileiro integra desde janeiro como pesquisador contratado na Unidade de Biologia e Genética da Malária do Instituto Pasteur, em Paris, trabalhava com atenção redobrada, repetindo cada etapa do experimento.
A equipe sabia estar diante de uma descoberta importante sobre o ciclo de vida do plasmódio, organismo de uma só célula que infecta por ano cerca de 250 milhões de pessoas no mundo – em especial na África, na Ásia e na América Latina – e mata quase 1 milhão, a maioria crianças com menos de 5 anos.
A novidade perseguida por Amino e parte da equipe de Ménard é que no organismo de camundongos – e possivelmente no humano – o parasita da malária não se desenvolve e amadurece exclusivamente nas células do fígado, onde, em dois dias, cada protozoário gera milhares de cópias capazes de invadir as células vermelhas do sangue, causando os calafrios, a febre alta e as dores musculares intensas típicos da malária. Injetados na pele pela picada de fêmeas de mosquitos do gênero Anopheles, alguns exemplares do plasmódio permanecem ali, onde se reproduzem e alcançam o estágio em que se tornam capazes de penetrar nas células sangüíneas.
Apresentada em maio de 2008 num seminário para pesquisadores da comunidade européia no Pasteur e prestes a ser publicada em uma revista científica internacional, a descoberta está longe de representar a cura para a malária, mal que possivelmente acompanha a espécie humana desde seu surgimento na África 200 mil anos atrás. Mas a identificação dessa fase até então não imaginada do ciclo do protozoário deve contribuir para a busca de formas mais eficientes de combatê-lo. É que os compostos usados para eliminar o plasmódio – a exemplo da cloroquina ou das artemisinas – agem apenas na fase sangüínea da infestação, na qual um único protozoário gera dezenas de cópias a cada 24 horas no interior das hemácias, as células vermelhas do sangue. “Mesmo a primaquina, composto capaz de eliminar os parasitas no fígado, não atingem os que se desenvolvem na pele”, explica Amino. Assim, o mesmo órgão que mantém os mamíferos em contato com o ambiente e os protege de contaminações pode funcionar como reservatório de parasitas da malária. “É preciso encontrar uma forma de atingi-los ali”, diz.
Veja o texto na íntegra: Agência FAPESP
Voltar